Tabernáculos

Palavras em poesia, prosa, delírios, devaneios, confissões, labirintos, idéias e pensamentos

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“peço uma cerveja ao menos gelada, acendo um cigarro, começo…”

hoje eu sou o velador noturno dos destinos desgraçados

sou aquele que testemunha os visos que jorram dos encontros fortuitos, das paixões lascivas

pois possuo agora a ânsia legítima do olhar estuprador

sinto-me um tentáculo exposto e ereto,

sinto-me ainda um novo viúvo da paixão

“conheço esse olhar, todos se reconhecem e se observam, o garçom me olha e sorri…”

cada esquina, cada curva, beco, bar, bodega, motel, canto de parede

cada puta, cada travesti, viado, bêbado, ladrão ou transeunte

tudo parece perfume sob o quadro negro da noite,

e cintilam

como se estivessem cobertos de lençóis, lençóis de flores prateadas

reconheço neste céu outrora aveludado cada monólogo

cada saliência

cada recôncavo úmido e pegajoso

“o garçom que me atende mostra-se cada vez mais cúmplice, mais próximo…”

sou guiado involuntariamente pelo odor das fezes, da urina, dos vômitos, dos cadáveres de pequenos animais e degetos

fragrâncias que dispensam mapas, náuseas e travesseiros

já tenho o tato rosado,

os olhos trêmulos,

ouvidos sorridentes,

nariz devastado

e o gosto desviado

estou torto e encantado

congratulo agora com o manuseio dessas verdades perigosas

“ei, me arranja mais uma bem gelada…”

nenhum olhar, trejeito ou sorriso aqui é casto

caminho lentamente pelo labirinto desvirginado

neste sarau de carne minha fome se torna faminta

pois o fedor do encontro entre aquilo que é teu e isso que é meu sugere fornicação

são horas mortas, são desejos mortais

anelando miraculosamente nossas vontades mais intimas

“me arranja a saidêra aí!”

qual um fantasma de grafite deixo-me levar pelo esboço de uma outra cumplicidade assassina

3:47 da manhã

“ei má, me arranja o teu fogo aí…”

arranjei

(para lenildo gomes e roberto bessa)

Margens

Folhas silenciosas
adornadas de charmes femininos
Eu odeio o silêncio
eu odeio o silêncio

Braços masculinos
adornados de olhos grandes
Eu odeio o som
eu odeio o som

Logo abaixo das estrelas
eu sou a seda entre os lagos
eu sou a seda entre os lagos

Esfera

Ouça meus pensamentos
como se fosse a “valsa do prazer”
Ouça os passos
Ouça a si mesmo
Sua cabeça é puro “noise”

Esfera

Eu dei uma olhada nos teus pecados
eu dei uma olhada nos teus sonhos

Eu dei uma olhada nas tuas peles
eu dei uma olhada nos teus sonhos

Alise a minha dor
Alise a minha dor

Esfera

Untitled 2

Devo içar-me ao cume da perseverança?
Devo deixar o acaso fluir deliberadamente?
Quem sabe assim
adornado de experiência
eu esqueça a noção do êxito
Exatos estes dias difíceis
e por que não dizer desleais.
Mas, e o amor que li dos livros???
- Fornicar… fornicar… fornicar!

O Despertar de Ulisses parte 6

Meu exílio, minha culpa
Meu quintal de olhos negros
partidos, quebrados
Eu espero o momento da queda
para assim findar tudo o que se passou
O poço invade meus dias
com aquela velha sensação tênue
:
“afundar-se na lama!”
“debruçar-se numa cama estranha!”
Eu não quero sentir o tempo
prefiro cuspir no alento da carne
Sem moldura
Apenas rigidez
Meus genes gritam
aos poucos devoram o instante, devoram a fome,
e vomitam a mim
Compreendo a indigestão,
logo consigo cingir todas as distâncias

e me delicio com a grandiloqüência,
a ferocidade do vazio
!
Eu sei, restam ossos
e mesmo eles dependem da consistência das coisas, das matérias
Mas prefiro o fogo
prefiro queimar-me
diminuir-me
dividir-me
tornar-me um amontoado de pó
reverenciando assim a idéia de fluidez
Pó… pó… pó.

(1994)

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